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Quem Pode Orar?
Faz apenas dois séculos que seis alunos da Universidade de Oxford foram expulsos simplesmente por se reunirem nos quartos uns dos outros, fora de hora, a fim de orarem. Por causa disso, George Whitefield escreveu ao vice-diretor nos seguintes termos: "É de se esperar que, como alguns alunos foram expulsos pelo fato de orarem fora de hora, fiquemos sabendo que outros serão expulsos pelo emprego de palavrões, fora de hora. Hoje - graças a Deus! - nenhum homem, em nenhuma terra pode ser impedido de orar. Qualquer pessoa pode orar - mas será que qualquer um tem o direito de
orar? Será que Deus ouve a todos?".
Quem pode orar? Será a oração um privilégio - um direito - de todos os homens? Nem todo mundo pode reivindicar a si o direito de aproximar-se de nosso rei terreno. Mas existem pessoas ou entidades que gozam do privilégio de um acesso imediato ao nosso soberano. O primeiro-ministro tem este privilégio. A augusta câmara municipal da cidade de Londres pode, a qualquer hora que desejar, depor sua petição aos pés do rei. Os embaixadores de quaisquer potências estrangeiras podem fazer o mesmo. Tudo que precisam fazer é apresentar-se na entrada do palácio, e ninguém poderá interpor-se entre eles e o monarca. Essas personalidades podem chegar imediatamente à presença do rei, e apresentar-lhe suas petições. Mas nenhuma delas tem acesso mais fácil nem recepção mais amorosa, que o filho do próprio rei.
Mas, quanto ao Rei dos reis - o Deus e Pai de todos nós, quem pode entrar em sua presença? Quem pode desfrutar tal privilégio? Sim, quem tem este direito - diante de Deus? Diz-se que até mesmo no mais cético dos homens, a oração encontra-se quase à superfície, apenas aguardando o momento de manifestar-se. E há muita verdade nisso. Será que ela tem o direito de manifestar-se a qualquer hora? Em algumas religiões, ela tem que esperar. Dentre os milhões de indianos que vivem sob a escravidão do hinduísmo, apenas os brâmanes podem orar. Um negociante rico de qualquer outra casta, por exemplo, é obrigado a pedir a um brâmane (que pode ser até um garoto) que faça suas preces por ele.
Os maometanos não podem orar, a menos que hajam decorado algumas frases em árabe, pois seu "deus" somente ouve orações que são feitas na língua que crêem ser o idioma sagrado. Mas, glória a Deus! Não existem quaisquer restrições de língua ou casta entre nós e nosso Deus. Então, todo homem pode orar?
Sim, responderá o leitor; qualquer pessoa pode. Mas não é o que a Bíblia diz. Somente o filho de Deus pode verdadeiramente orar a Deus. Somente os filhos podem entrar em sua presença. É verdade - uma gloriosa verdade - que qualquer pessoa pode clamar por seu auxílio, perdão e misericórdia. Mas isso não é realmente oração. Oração é mais que isso. Orar é penetrar no "esconderijo do Altíssimo e habitar à sombra do Onipotente". (SI 91.1) Orar é colocar Deus a par de nossas necessidades e desejos, e estender a mão da fé para receber suas dádivas. A oração é una decorrência da habitação do Espírito Santo em nós. É comunhão com Deus. Ora, é quase impossível exigir uma relação de comunhão entre um Rei e um rebelde. Que comunhão pode haver entre as trevas e a luz- (2 Co 6.14.) Por nós mesmos, não temos nenhum direito de orar. Temos acesso a Deus apenas pela mediação do Senhor Jesus Cristo (Ef 3.18; 2.12).
A oração não é apenas o clamor de um homem que se afoga - de um homem que está afundando no redemoinho do pecado, e grita: "Senhor, salva-me! Estou perdido! Estou destruído! Redime-me, Senhor! Salva-me!" Qualquer um pode fazer isso, e essa petição nunca é desatendida, e sua resposta nunca tarda, quando feita em sinceridade. Mas isso não é oração, na verdadeira acepção bíblica. Até mesmo os leões, quando rugem a procura de sua presa, buscam alimento de Deus; mas isso não é oração.
Sabemos que o Senhor disse: "Todo o que pede recebe - (Mt 7.8). E ele o disse de fato. Mas a quem se dirigia? Falava aos discípulos. (Mt 5.1,2.) Sim; a oração é comunhão com Deus; a "vida" da alma, como já disse alguém. E duvido muito que possamos ter comunhão com ele, a menos que o Espírito Santo habite em nosso coração, e tenhamos "recebido" o Filho, tendo, portanto, o direito de sermos chamados "filhos de Deus" - (Jo 1.12).
A oração é prerrogativa dos filhos. Somente eles podem reivindicar do Pai celestial as bênçãos que ele tem preparado para aqueles que o amam. O Senhor disse que, em oração, devemos dirigir-nos a Deus como "Pai Nosso". Certamente, apenas os filhos podem empregar esse tratamento. Paulo diz: "E, porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai." (Gl 4.6.) Seria nisto que Deus estava pensando quando, falando aos "consoladores" de Jó, lhes disse: "O meu servo Jó orará por vós; porque dele aceitarei a intercessão" (Jr. 42.8). Ao que parecia, a oração deles não seria aceita. Mas logo que nos tornamos filhos de Deus, precisamos entrar na "escola da oração". "Ele está orando", disse o Senhor a respeito de um homem que acabara de converter-se (At 9.11). Os convertidos não apenas podem, mas devem orar - cada homem por si mesmo, e, naturalmente, pelos outros também. Mas, a menos que possamos verdadeiramente chamar Deus de Pai, e enquanto não o pudermos, não temos nenhum direito de ser tratados como filhos - "herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo" - não temos o mínimo direito. Você acha essa condição severa demais? Não; pelo contrário, é um fato natural. Será que um "filho" não tem privilégios?
Mas não me interpretem mal. Isto não exclui ninguém do reino dos céus. Qualquer pessoa, em qualquer lugar pode clamar: "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" Qualquer homem que se encontre fora do aprisco de Cristo, fora da família de Deus, por pior que seja, ou por melhor que creia ser, pode, neste mesmo instante, tornar-se filho de Deus, enquanto lê estas linhas. Apenas um olhar para Cristo, em fé, basta. "Olhai e vivei!'' Deus não diz: Vê - ele diz apenas: Olhe! "Volte seu rosto para Deus!".
Como foi que os gálatas se tornaram "filhos de Deus"? Pela fé em Cristo. "Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus." (GI 3.26.) Cristo torna filho de Deus, pela adoção e pela graça, qualquer homem que se voltar para ele em arrependimento sincero e com fé. Mas ninguém tem nenhum direito nem mesmo à providência divina, a menos que seja filho de Deus. Não podemos dizer, com confiança e certeza: "Nada me faltará", a não ser que possamos afirmar, com confiança e certeza: "O Senhor é meu pastor."
Um filho, porém, tem direito ao cuidado, amor, proteção e provisão do pai. Ora, uma criança só pode pertencer a certa família se nascer nela. Nós nos tornamos filhos de Deus, nascendo "de novo", nascendo "do alto" (Jo 3.5) Isto é, crendo no Senhor Jesus Cristo (Jo 3.16).
Tendo dito isso à guisa de advertência e talvez como uma explicação da razão por que algumas pessoas fracassam completamente na oração, apressamo-nos a acrescentar que Deus muitas vezes ouve e atende as orações daqueles que não têm o direito legítimo a ela daqueles que não são seus "filhos" e possivelmente até neguem que ele exista. Os Evangelhos nos falam de não poucos incrédulos que buscaram a Cristo pedindo-lhe cura de uma enfermidade, e ele nunca despediu ninguém sem a bênção desejada - nunca. Vinham como "mendigos", e não como "filhos". E embora seja necessário que "primeiro... se fartem os filhos", esses outros receberam "migalhas", e, por vezes, mais que migalhas, dadas liberalmente.
E hoje também muitas vezes Deus ouve o clamor dos incrédulos que lhe pedem bênçãos temporais. Um exemplo disso, que conhecemos bem, poderá servir de ilustração. Um amigo meu relatou-me que fora ateu durante muitos anos. Embora incrédulo, cantava no coro de certa igreja havia quarenta anos, pois gostava muito de música. Seu velho pai adoeceu, alguns anos atrás, sofrendo fortes dores. Os médicos nada podiam fazer para aliviar seu sofrimento. Desesperado pelo estado do pai, este corista incrédulo caiu de joelhos e clamou: "O Deus, se existe um Deus, mostra teu poder, aliviando as dores de meu pai!" Deus ouviu o clamor daquele homem e removeu as dores imediatamente. O "ateu" louvou a Deus e correu ao pastor para indagar acerca da salvação. Hoje ele e um homem totalmente consagrado a Deus, dedicando todo o seu tempo ao Salvador recém-encontrado. Sim; Deus é superior às suas promessas, e está mais disposto a atender nossa petição do que nós a orar.
"A Oração que Funciona"
Editora Betânia.
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